Deus pode me usar?
Vivemos em um mundo que nos incentiva constantemente a olhar para nós mesmos. Nossos problemas, necessidades, sonhos, conquistas e desafios. Passamos boa parte da vida buscando soluções para aquilo que nos preocupa, tentando organizar nossas finanças, cuidar da saúde, desenvolver nossa carreira e construir um futuro.
Não há nada de errado nisso. Precisamos cuidar da nossa vida e assumir nossas responsabilidades. Entretanto, existe um risco: ficarmos tão ocupados conosco que nos esquecemos de que também fomos chamados para cuidar das pessoas.
Não fomos chamados apenas para receber, mas também para transbordar.
Transbordar o amor que recebemos, a graça que experimentamos, o conhecimento que adquirimos, as experiências que vivemos e tudo aquilo que Deus colocou em nossas mãos.
Ao longo da minha caminhada com Deus, tenho compreendido cada vez mais que nossa vida não pode se resumir às nossas próprias necessidades. Existe algo muito maior acontecendo, uma missão da qual somos convocados a participar.
Mas, diante de um mundo com tantas necessidades e de uma missão aparentemente gigantesca, uma pergunta pode surgir em nosso coração: Deus pode me usar?
Jesus deixou uma orientação muito clara aos seus discípulos:
“Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.” (Mateus 28:19, NVT)
Esse chamado não ficou restrito àqueles que estavam naquele momento com Jesus. A missão de compartilhar o Evangelho, amar, servir e cuidar das pessoas continua sendo uma responsabilidade da Igreja, da qual fazemos parte.
Entretanto, muitas vezes acreditamos que precisamos estar preparados para começar. Precisamos conhecer mais a Bíblia, resolver nossos conflitos internos, superar nossas dificuldades, conquistar estabilidade financeira ou desenvolver determinadas habilidades.
E assim vamos adiando aquilo que poderíamos começar a fazer hoje.
A Bíblia, porém, apresenta um padrão interessante. Moisés tinha dificuldade para falar. Gideão se considerava pequeno e insignificante. Jeremias acreditava ser jovem demais. Davi não parecia ser a escolha mais provável. Ester teve medo. Maria não compreendia como seria possível cumprir aquilo que lhe foi anunciado. Pedro falhou, e Paulo carregava um passado de perseguição à Igreja.
Mesmo assim, Deus os chamou.
Em 1 Coríntios 1:26-29, Paulo nos lembra que Deus escolheu pessoas consideradas fracas e insignificantes aos olhos do mundo para realizar seus propósitos.
Isso nos ensina algo fundamental: não precisamos estar prontos para começar, mas precisamos estar dispostos a ser aperfeiçoados durante o caminho.
Quando Gideão apresentou suas limitações, Deus respondeu: “Eu estarei com você” (Juízes 6:16). Encontramos essa mesma mensagem no chamado de Moisés, em Êxodo 3:12, e de Jeremias, em Jeremias 1:8. O próprio Jesus, ao enviar seus discípulos, afirmou que estaria com eles todos os dias, até o fim dos tempos (Mateus 28:20).
A resposta de Deus não foi simplesmente dizer que aquelas pessoas eram capazes de fazer tudo sozinhas. A resposta foi a promessa da sua presença.
O apóstolo Paulo também recebeu uma palavra que nos ajuda a compreender esse princípio: “A minha graça é suficiente para você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2 Coríntios 12:9).
Talvez você se considere pequeno, despreparado ou incapaz de fazer algo relevante para o Reino. Mas a questão não está apenas naquilo que conseguimos realizar com nossas próprias forças, e sim naquilo que Deus pode realizar por meio de uma vida disponível.
Deus não nos chama para uma vida de espectadores, mas para uma vida de participação ativa.
É interessante observar como costumamos nos relacionar com as promessas de Deus. Buscamos suas bênçãos, pedimos provisão, saúde, proteção, prosperidade e direção. E devemos fazer isso, pois temos um Pai amoroso que se importa conosco.
Entretanto, precisamos compreender que a Palavra não apresenta apenas promessas. Ela também apresenta chamados, responsabilidades e orientações sobre como devemos viver.
Somos chamados para fazer discípulos (Mateus 28:19-20), servir uns aos outros com os dons que recebemos (1 Pedro 4:10), defender os necessitados (Salmos 82:3), cuidar dos órfãos e das viúvas (Tiago 1:27) e anunciar o Evangelho (Marcos 16:15).
Não podemos desejar apenas aquilo que Deus pode fazer por nós e ignorar aquilo que Ele nos orienta a fazer pelas pessoas.
E aqui surge outra pergunta importante: qual é o meu papel nessa grande missão?
Nem todos serão pastores, pregadores ou missionários em outras nações. Mas todos podemos participar da missão de Deus, cada um conforme seus dons, oportunidades e responsabilidades.
Podemos servir em nossa igreja, abrir nossa casa para receber pessoas, ajudar em projetos sociais, interceder por alguém, compartilhar nossos testemunhos, ensinar aquilo que aprendemos, acolher quem está passando por dificuldades e investir tempo no cuidado de outras pessoas.
Podemos também colocar nossas habilidades profissionais a serviço do Reino. Um empresário pode expressar sua fé na maneira como conduz seus negócios e cuida das pessoas. Um professor pode ensinar com amor e responsabilidade. Um engenheiro pode utilizar seus conhecimentos para servir à sociedade. Um profissional pode ser instrumento de Deus dentro da empresa onde trabalha.
Gosto muito desse conceito de sermos missionários no mundo corporativo. Não precisamos necessariamente abandonar nossa profissão para servir a Deus. Podemos compreender que nosso ambiente profissional também é um lugar onde temos oportunidades de viver e compartilhar nossa fé.
O chamado não começa necessariamente em um lugar distante. Ele pode começar exatamente onde estamos, com aquilo que já temos e com as pessoas que Deus colocou ao nosso redor.
Mas como saber o que Deus deseja que façamos?
Acredito que esse direcionamento começa pelo relacionamento com Ele. Precisamos investir tempo a Sós com Deus, nosso TSD, não apenas para apresentar problemas e pedidos, mas para desenvolver intimidade, conhecer sua Palavra e aprender a ouvir.
Muitas vezes, nossas orações estão concentradas em pedir que Deus resolva situações que estamos enfrentando. Algumas dessas situações, inclusive, podem ser consequências de decisões tomadas sem buscarmos sua direção.
E se, além de pedirmos ajuda para resolver nossos problemas, começássemos a perguntar ao Senhor como podemos participar dos seus planos?
Podemos buscar esse direcionamento por meio das Escrituras, examinando tudo à luz da Palavra. Também podemos receber orientações e correções por meio de líderes e irmãos maduros na fé. Precisamos cultivar nossa intimidade com Deus, aprendendo não apenas a falar, mas também a permanecer em silêncio e simplesmente ouvir.
Uma pergunta simples pode transformar a maneira como começamos nossos dias: “Espírito Santo, como quer me usar hoje?”
Talvez a resposta esteja em uma conversa que precisamos ter, em alguém que devemos procurar, em um pedido de perdão, em uma pessoa que necessita de ajuda ou em uma oportunidade de compartilhar a Palavra.
Não precisamos esperar por uma grande missão para começar a obedecer aos pequenos chamados do cotidiano.
Existe ainda algo que considero fundamental nessa caminhada: não podemos permitir que ressentimentos, frustrações e decepções consumam toda a nossa energia. Precisamos tratar nossas feridas, perdoar, amadurecer e seguir em frente. Não temos tempo a perder alimentando aquilo que nos afasta do amor e do propósito de Deus.
A vida passa rapidamente, como aprendemos com o Pr. Melvin Huber: “Somente uma vida nós temos, e logo ela passará. Somente o que for feito por Cristo permanecerá.”
Isso nos convida a refletir sobre aquilo que realmente estamos construindo e sobre o legado que deixaremos.
Em Filipenses 1:6, Paulo demonstra sua confiança de que aquele que começou a boa obra continuará seu trabalho até completá-la no dia de Cristo Jesus.
Essa é uma perspectiva importante para nossa caminhada. Não somos uma obra concluída. Estamos em construção, sendo transformados e aperfeiçoados pelo Senhor.
Por isso, não precisamos esperar que todas as áreas da nossa vida estejam resolvidas para começar a servir. Podemos cuidar da nossa própria construção enquanto participamos da construção da vida de outras pessoas.
E servir não significa abandonar nossas responsabilidades, negligenciar nossa família ou viver sobrecarregados. Significa aprender a administrar aquilo que recebemos, reconhecendo que nosso tempo, nossos recursos, nossas experiências e nossas habilidades também podem ser instrumentos de amor.
Quero encerrar com uma reflexão.
Você crê em Deus? Crê em Jesus e na obra da cruz? Crê que a Bíblia é a Palavra de Deus? Crê que o Senhor continua ouvindo nossas orações, agindo em nossas vidas e cumprindo seus propósitos?
Então precisamos considerar também que os chamados de Deus continuam exigindo uma resposta de nossa parte.
Não fomos convidados apenas para conhecer histórias de homens e mulheres que viveram pela fé. Fomos chamados para escrever nossa própria história de obediência, serviço e relacionamento com Deus.
Outros já viveram seu tempo, enfrentaram seus desafios e cumpriram suas missões. Agora é a nossa vez.
Deus pode me usar? Sim. Não porque eu seja perfeito, esteja pronto ou tenha todas as respostas, mas porque Ele pode me transformar, capacitar e conduzir durante o caminho.
Que possamos viver com a disposição de quem compreendeu que recebeu muito e, por isso, também deseja compartilhar muito.
Que nossas vidas não sejam apenas recipientes das bênçãos de Deus, mas instrumentos do seu amor.
Somos chamados para transbordar.
Construa a sua vida sobre a Rocha //// Edifique-se
por Felipe Lima
@felipelima_eng
